Lúcia Gomes: a vida é o trabalho more

16° Encontro Nacional da Associação Nacional de Pesquisadores de Artes Plásticas Dinâmicas Epistemológicas em Artes Visuais – 24 a 28 de setembro de 2007 – Florianópolis LÚCIA GOMES – A VIDA É O TRABALHO PROFº DR.ORLANDO MANESCHY – Professor Adjunto da Faculdade de Artes Visuais/ ICA/UFPA RESUMO: Este artigo aborda a produção visual da artista paraense Lúcia Gomes e as relações entre política, arte e vida nas proposições e ações realizadas. Palavras-chave: Arte brasileira contemporânea; arte e política; arte na Amazônia; performance. ABSTRACT: Thos article is about the visual production of paraense artist Lúcia Gomes and the relationship between politic, art and life in the proposes and actions done. Key words: Contemporary brazilian art; art and politic; art in Amazônia; performance. A obra da artista visual paraense Lúcia Gomes está inscrita em um campo de proposições em que performances e ações públicas estabelecem um espaço relacional em que o espectador transforma-se em participante ao entrar em contato com os procedimentos da artista. As experiências propostas têm origem nas preocupações sócio-ambientais da artista, que irão se adensar no campo da arte. Gomes, que foi ativista no Movimento Revolucionário 8 de Outubro por um período expressivo, irá conduzir esta experiência com toda sua carga e envolvimento para os territórios em que transita posteriormente, como a doutrina espírita, o Seisho-No-Iê e, finalmente, a arte. Neste território sua potência passa a constituir relações complexas, ativando estratégias que atravessam políticas do cotidiano. Suas proposições extremamente vinculadas a experiências da vida, estabelecem vínculos com questões culturais e eventos de especificidade local, convidando os participantes a experimentos que suscitam a refletir sobre valores sociais e afetos. Desta forma, questões sociais, como pedofilia, violência contra a mulher, preconceitos religiosos, crimes na Internet, ecologia, relações interculturais etc., vão nortear a produção da artista. Sua produção articula com processos de experiência artística como a arte conceitual, que se desenvolveu na segunda metade do século passado e tinha, como preceito básico, que os conceitos e idéias geradoras das obras constituíam o verdadeiro trabalho. Dentro desta perspectiva, a materialidade da obra de Lúcia Gomes realmente é menos importante para a artista do que as idéias que engendram suas ações. Certamente que seus projetos encontram 454 16° Encontro Nacional da Associação Nacional de Pesquisadores de Artes Plásticas Dinâmicas Epistemológicas em Artes Visuais – 24 a 28 de setembro de 2007 – Florianópolis eco em diversos recortes dentro da história da arte, como no Dadá, quando a artista demonstra sua inconformidade diante dos valores estabelecidos e da hipocrisia da sociedade. A obra de Gomes vincula aqueles que aceitam o convite proposto em seus trabalhos a uma experiência política. Mesmo contando com pouco apoio, ou realizando trabalhos em que o envolvimento, necessário, por parte do público é pequeno, como em O beijo, 1945, fim do Holocausto, 2006, em que convida a comunidade presente no III Fórum de Pesquisa em Arte para tomar parte em um “beijaço”, partindo de uma imagem fotográfica encenada de Robert Doisneau, Gomes incita, dirige, brinca e fotografa um grupo que não chega a vinte pessoas, mas a proposição está ali, o estímulo a troca, ao desenrrigecimento do corpo, ou ainda em BUUUU, 2006, em que despeja cerca de mil balões brancos, na confluência de duas importantes avenidas da cidade de Belém, às proximidades do Hilton Hotel, que fica em frente a um dos pontos mais tradicionais da prostituição na capital, a Praça da República, marcando o dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual Infanto-Juvenil. Sua atitude estética é impregnada de política. Lúcia Gomes capta, tal qual uma antena, problemas de seu entorno, como na obra Xplorer, 2005, em que ao re-elaborar uma tradição típica da infância paraense - o consumo de pirulitos de maracujá em praias de veraneio, vendidos em formato de alongados cones, envoltos em papel manteiga e apresentados em uma espécie de tabuleiros nos quais os pirulitos encontramse enfiados – discute a pedofilia e sua expansão via internet. Desta forma, diferentemente dos pirulitos vendidos por garotos na praia, consumidos, na maioria, por crianças, os de Lúcia Gomes tem, como suporte para o público segurar, pregos. Ao associar a experiência saborosa do consumo dos pirulitos de maracujá ao aço dos pregos, Gomes propõe um deslocamento da experiência. Não há mais o conforto conhecido, sabor de infância feliz, mas a expectativa e o receio do contato com o metal que pode ferir e é frio. Suas ações e intervenções são por vezes silenciosas. Mesmo quando lançadas na imprensa, não se transformam em matéria de consumo. Assim é com o projeto Me Manda Pra China, que parte da própria observação da artista sobre o consumo de produtos oriundos dos países asiáticos. Lúcia Gomes se apropria da avidez do mercado do “1,99” e “inventa” uma série de obras, 455 16° Encontro Nacional da Associação Nacional de Pesquisadores de Artes Plásticas Dinâmicas Epistemológicas em Artes Visuais – 24 a 28 de setembro de 2007 – Florianópolis inicialmente serigrafias, para serem vendidas e custearem sua viagem rumo à China. De acordo com o jogo da artista, seriam um milhão de peças, vendidas a princípio a cinqüenta centavos [posteriormente atingiriam o valor de um real]. No evento de lançamento do projeto, realizado no Museu de Arte de Belém – Mabe, apenas uma meia dúzia de amigos artistas compareceram. Nem a pretensa crítica de arte ou curadores locais foram lá. Lógico, a obra de Gomes incomoda. Critica o posicionamento dos artistas, que anseiam por tornarem-se objeto de consumo, ainda desejando por paredes de salões da “elite paraense”. Gomes pinta suas telas no pátio do museu utilizando apenas duas cores: branco e vermelho - China. Secando ao sol, as telas eram vendidas a cem reais. Sobre um fundo colorido, finos traços remetem a sexo e amor. Gomes passa horas na net, namorando e planejando sua viagem para o outro lado do globo, onde um casamento a espera. Estaria ela equacionando a imagem da China comunista, ideal de seu passado, com esta que despeja objetos para consumo imediato, numa tentativa de juntar as peças, em que consumo, sexo, amor, política se misturam? Não, sua obra não é feita para decorar inocentes paredes, não é feita para esses lugares. Visceral e potente, sua produção se desdobra na vida, necessitando ser acompanhada, pensada e repensada em suas extensões; demanda atenção e acompanhamento contínuo. Ao visitar amigos, aborda-os com uma das mãos estendidas solicitando e fala: “me manda pra China”, numa alusão explícita à expressão idiomática antiga, utilizada por aqueles que já não agüentam mais seu interlocutor. A artista sabe do desconforto que causa. Mas não deixa de incitar, de propor uma compartilhamento, uma parceria na performação. Suas obras não são facilmente digeríveis devido ao seu conteúdo político. Seus trabalhos apontam para uma micropolítica que articula questões maiores, como em Mêsntruo Mostra Monstro Mostarda, 2006, realizada no Dia Internacional da Mulher, 08 de maio, em homenagem à irmã Dorothy Stang, missionária norte-americana assassinada em 2005, que trabalhava na Região Amazônica com questões fundiárias e ecológicas. Nesta ação, desenvolvida no centro da cidade, na Avenida Visconde de Souza Franco, mais precisamente no canal da Doca, antigo rio, que atualmente recebe esgoto de prédios de luxo e deságua na Baía do Guajará, Lúcia Gomes entra no canal com garrafas 456 16° Encontro Nacional da Associação Nacional de Pesquisadores de Artes Plásticas Dinâmicas Epistemológicas em Artes Visuais – 24 a 28 de setembro de 2007 – Florianópolis cheias de tinta na cor vermelho China e penetra na tubulação de esgoto. É no interior das vias que a artista irá tingir os dejetos fétidos despejados no canal. Descalça, vestida de negro, não se preocupa com o risco que está correndo, apenas tinge de vermelho a água, que começa a escorrer e se espalhar por toda a extensão do canal no final da tarde. Vendedores ambulantes, desportistas que caminham ao redor da vala tentam entender o porquê da cor vermelha que se espalha em nuances e degradês, propiciados pela diluição da tinta e misturada com detergentes, químicos, variando entres diversos tons do vermelho. “É arte!”, fala um ambulante que acompanha a ação desde o início. Após a ação, a artista divide pão e coca-cola com os vendedores que a acompanharam e a ajudaram a entrar no canal. Trêmula, a artista não contém a emoção ao perceber a cor se espalhando por toda a extensão da avenida: chamado de alerta sobre a violência contra a mulher, sobre o assassinato no campo, sobre as diversas agressões imputadas à vida. É uma ação silenciosa, dividida com pessoas simples para os quais a artista fala sobre a obra. Não interessa a ela apenas o público de arte, mas interessa fazer pensar, estimular uma transformação na vida, no cotidiano das pessoas enquanto cidadãos. Gomes se relaciona da mesma forma com todos os espaços nos quais pode desenvolver projetos. Não há preconceitos ou preferências. A artista busca a igualdade. Seja em um trabalho realizado na República de Emaús, instituição que atende pessoas carentes, seja dentro do museu, e a artista irá se comportar da mesma maneira, constituindo sua obra com a mesma potência com que atua, e dialogando de igual para igual com quem quer que seja. Ao articular questões sobre pesca predatória e fome, na proposição intitulada GlubGlubSnif, estabelece uma relação junto ao Instituto do MeioAmbiente – Ibama, para conseguir o pescado coletado de forma criminosa. A idéia é intervir sobre os peixes pintando uma lágrima com tinta comestível, colocá-los no freezer cor de rosa, com o título gravado em azul bebê. Este é instalado na calçada de uma rua ou praça qualquer da cidade e perto da hora do almoço a artista distribui os peixes a quem desejar. A noção de partilha está inscrita na postura de Lúcia Gomes. Em Amaivos, 2005, originalmente uma instalação que se desdobra na ação de distribuir 457 16° Encontro Nacional da Associação Nacional de Pesquisadores de Artes Plásticas Dinâmicas Epistemológicas em Artes Visuais – 24 a 28 de setembro de 2007 – Florianópolis beijus [espécie de bolacha regional feita com farinha de mandioca e muito utilizada como uma das fontes principais de alimento por famílias extremamente carentes no interior da região] com a inscrição “amai-vos”, pintada com tinta vermelha comestível, a artista mais uma vez lança mão de particularidades culturais para falar de valores da humanidade. A divisão do pão, do “pão” do nortista que divide o biscoito-hóstia de Gomes, mas sem o peso da culpa de uma religião qualquer, em uma situação lúdica de brincadeira, de romper o saco plástico, tal qual criança pronta para devorar o alimento que, diferentemente do biscoito chinês, já traz a frase revelada: “Amaivos”. É assim, com suas obras inscritas e misturadas em sua vida que a artista se posiciona. Sem limites, ou freios, de peito aberto, tal qual o berloque que utilizava num cordão. Pequeno coração de prata, do tipo que traz fotografias em seu interior. Só que o de Lúcia era utilizado aberto, sem imagem alguma, objeto de uso cotidiano, adorno, símbolo da atitude de uma artista que não teme a vida, e se expõe sem amarras ou pudores e que, ao estabelecer diálogo, se entrega, como fez com uma artista no momento em que se conheceram, presenteando-a com o “coração aberto”, logo após perceber o encantamento da mesma pelo objeto. Lúcia cria seu universo particular, suas roupas próprias, com as rendas que tanto gosta, com detalhes, desenhos nervosos, proposições sucessivas de uma mente que não sabe ficar sem pensar em arte. E como poderia, se está totalmente impregnada desta potência que é sua própria vida - ela que a move, estimula e a atravessa. Como outros artistas especiais, Lúcia Gomes não consegue e jamais conseguiria fazer outra coisa, se relacionar com o mundo de uma forma mais simples, mais enquadrada no sistema. Mistura estética, política, conceitos. É arte o que ela constitui, mas num território questionador, pois sua cerebralidade dificulta seu engessamento, sua categorização. Ela simplesmente não consegue se enquadrar e é agredida com a incompreensão dos ignorantes que não absorvem suas ações, proposições, discursos. “Louca!”, insistem, por não saberem lidar com seu próprio continente. Gomes os faz temer a força e a flutuação de limites, tênues, se é que realmente existem. É aí que está o perigo: perceber a lucidez e a profundidade 458 16° Encontro Nacional da Associação Nacional de Pesquisadores de Artes Plásticas Dinâmicas Epistemológicas em Artes Visuais – 24 a 28 de setembro de 2007 – Florianópolis inerente no território movediço e pungente no qual a poética de Lúcia Gomes se instaura, forte, silenciosa, delicada e sem a pretensão de “dar certo”. É visceral, e nos retira dos lugares de conforto que lentamente constituímos. E aí constitui sua ação política. REFERÈNCIAS: BAITELLO JUNIOR, Norval. Dadá-Berlim: desmontagem. São Paulo: AnaBlume, 2ª Edição, 1994. CRIMP, Douglas. Sob as ruínas do museu. São Paulo: Martins Fontes, 2005. ELGER, Dietmar. Dadaísmo. Köln: Tachen, 2004. FREIRE, Cristina. Poéticas do processo. São Paulo: Mac/Iluminuras, 1999. FREIRE, Cristina. Arte conceitual. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editores, 2006. JACQUES, Paola Bereinstein. Estética da ginga: a arquitetura das favelas através da obra de Hélio Oiticica. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2001. LEE, Pamela M. Object to be destroyed. Massachuusetts: Massachuusetts Institute of Teconology, 2000. MALPAS, James. Realismo. São Paulo: Casac & Naify, 2000. ORLANDOMANESCHY Artista, pesquisador e curador independente, realiza projetos visuais utilizando a imagem em suas diversas possibilidades de articulação. Professor da UFPA, atua na graduação e pós-graduação na Faculdade de Artes Visuais do Instituto de Ciências da Arte. Vem participando de projetos e publicações de arte no país e exterior. 459
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